BRAVO CORAÇÃO

                       Nos longínquos idos de 1936, quando a Europa já começava a se debruçar diante do nazifascismo hitlerista, numa noite de lua cheia, um coração bravo  vinha a este (imundo) mundo na bela Cidade de Curitiba, Estado do Paraná, para enfrentar os espinhosos e tortuosos caminhos desta jornada terrena, ainda que efêmera, diante da grandeza e eternidade do universo.

                      Agora, no entardecer da vida, esse coração bravo  se mostra, em verdade, um BRAVO CORAÇÃO ao resistir, tanto que possa, ao chamamento que a todos os seres vivos estão iniludivelmente sujeitos.

                       Nesta quadra da vida, com todas as peças da extraordinária  máquina vital já se mostrando em inevitável desgaste, imagina ouvir um interessante debate entre o Bravo Coração e o restante da engrenagem corporal com a qual necessariamente se interage para a consecução da tarefa verdadeiramente divina que se traduz em VIVER.

                      Assim, numa bela manhã de mais um dia, no leito de um CTI hospitalar, em um ambiente sombrio e frio, como  são as  unidades de terapia intensiva, no delírio de uma dolorida intravenosa, o paciente pensa ouvir um  bate-boca entre o Coração e os principais órgãos do corpo que animam  a espécie  humana.

                      É do imaginário popular que, desde as  priscas eras, o Cérebro disputa com o Coração o troféu de órgão supremo do ser humano, donde, de início, trava-se  entre os dois  o seguinte diálogo:

CÉREBRO – “Oh, coração, já se convenceu de que sou eu que comando o corpo?”

CORAÇÃO – “Para com isso, se eu deixar de bater, você é o primeiro a cair por falta de oxigênio”.

CÉREBRO – “Não é isso que diz, por exemplo, a legislação brasileira para considerar a pessoa morta somente quando eu paro de trabalhar, ou seja, quando é constatada a morte encefálica,  como consagra o  artigo 3º da Lei nº 9.434/97”

CORAÇÃO – “engana-se, meu dileto companheiro de jornada, ainda depois de sua morte, eu continuo a bater palmas por um tempo que pode chegar até cinco, seis ou sete dias, e, quando paro, levo comigo você e o restante do corpo ante à  chamada falência múltipla dos órgãos, tanto é assim que depois de você parar, eu posso até ser levado para que outro corpo para continuar vivo, conforme faz, hoje rotineiramente,  a medicina moderna”.

                      Gostou? O que achas disso?”

                      Nesse momento, reinando silêncio de ambas as partes, cada qual se dá como vencedor nessa disputa, caso contrário se eternizaria o debate.

                      No instante seguinte,  os Pulmões ao ouvirem a discussão, se atrevem a provocar o Coração:

PULMÕES – “coração, você acaba de dizer que o coirmão cérebro morre quando lhe falta oxigênio, e como sabido, quem depura o ar que o humano respira para extrair o oxigênio somos nós, então isto é o bastante para comprovar que os pulmões são os órgãos principais de um corpo”.

CORAÇÃO, respondendo a provocação, diz: “ledo engano, o próprio Supremo Arquiteto do Universo que planejou e cria os seres humanos,  ao colocar dois órgãos para fazer um só serviço é o bastante para demonstrar que vocês são mui frágeis, e como tal, estão longe de serem os principais órgãos”.

                       Sentindo o golpe, os pulmões vão saindo de mansinho do debate.

                   Os Rins, que a tudo assistiam calados, resolvem interferir em favor  dos Pulmões, procurando justificar a dobra de órgãos para a prestação de um só serviço,  dizendo a uma só voz:

“Ora, deixa de ser besta coração, a razão de sermos dois para  um só serviço é que o esforço que fazemos é dobrado para que você e o restante do corpo recebam tudo limpo e filtrado, e ainda um só de nós pode substituir o outro do par quando ele fica fraco, adoece ou falece por culpa de vocês que não prestam adequadamente  os respectivos serviços”.

                       O  Coração, parecendo perder a paciência, sussurra entre os dentes: “pobres coitados, sequer merecem resposta, pois os seus serviços são até mesmo desnecessários, tanto que podem ser substituídos externamente mediante a hemodiálise a vida toda ao passo que eu sou o único órgão insubstituível por muito tempo ”.

                      Logo,  a dupla renal fala para os Pulmões: “não vamos perder mais tempo com esse prepotente, deixa para lá, vamos continuar silenciosamente os nossos trabalhos se não a máquina humana vai parar”.

                        O silêncio que se segue é quebrado quando o Fígado agita novamente o ambiente: “parem de falar bobagens, eu sim é que sou o principal órgão do corpo na medida em que exerço a função de metabolizar e armazenar os nutrientes para o aparelho digestivo impulsionar todo o sistema do corpo humano e consequentemente dar força ao músculo cardíaco para poder exercer a sua função de bombear sangue para manter o funcionamento de todo o aparelho corporal”.

                    Sentindo-se provocado, o Coração retruca dizendo: “apenas aceito a pequena colaboração do Fígado para que a pessoa não amarele, eis que poucos gostam da cor amarela, pois a maioria prefere a vermelha, cor da coragem e da verdadeira saúde, não sendo por outro motivo que se ouve falar constantemente que se alguém está corado, está  com saúde”.

                       Diante disso, o Fígado cai na gargalhada e  se recolhe humildemente ao seu quadrante superior direito do abdômen, logo abaixo do diafragma, para bem continuar a produção de 500 a 1000 ml de biles, que não podem faltar ao corpo, sob pena de ser até mesmo enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, como é a moda vigente.

                      Mais um vez se sentindo vitorioso, o Coração, sacudindo os ombros, continua no  ritmo com o seu tique nervoso de 60 batidas por minuto até que é chamado a atenção por um som desagradável, provindo da parte de baixo,  clamando para si a coroa de rei do corpo, falando, ora de modo grosso, ora de  modo delgado: “ quanta bobagem, nós é que somos os seus comandantes, pois basta nós os trancarmos  na prisão de ventre que todos vocês tonteiam, fazendo a pessoa  passar por grandes apertos, até nós liberarmos a válvula de escape; quá, quá, quá…”.

                       Aí, (esse aí inafastável nas estórias e histórias custou a aparecer), o Coração, não se contendo, arremata: “embora, eu te respeite, contudo, vale lembrar que se antes disso eu não liberar  o sangue para vocês,  a sua chave não funcionará. Ok”.

                       Nessa altura, o Coração parece ter liquidado as pretensões de todos os principais concorrentes, todavia, eis que a Pele grita bem alto: “eu, como maior órgão do corpo humano, que protejo todos vocês das intempéries que assolam o ambiente em que vivem, é que sou a peça principal do corpo humano”.

                Logo, o Coração lhe responde, dizendo enfaticamente: “Pele, embora a reconhecermos como o maior órgão do corpo humano, mas nem por isso pode ser considerada a peça principal da máquina na medida em que o seu papel na engrenagem humana é inteiramente passiva e inerte, servindo apenas de mera cobertura dos demais órgãos. E para finalizar, pois não quero mais discussão, sem embargo de respeitar a todos, aproveito para render  minhas homenagens aos modestos órgãos genitais, simplesmente porque se não forem eles em seus afazeres, quando provocados a tanto, não raras vezes em exercícios  clandestinos, todos nós outros não estaríamos aqui discutindo, ainda que inutilmente.  Essa é a verdade.”

                        De repente, não mais do que de repente, ouvem uma tonitruante voz, paradoxalmente suave e divina: “CALEM-SE TODOS”.

          Os órgãos, então se agitando, em uníssono, indagam: “QUEM?   QUEM?   QUEM?”.

                       E a sublime VOZ responde: “Eu sou o Criador de  todos vocês e de todas as coisas que existem no universo; vocês não me conhecem pessoalmente porque sou a energia que movimenta tudo. Faço viver. Faço morrer. Conheço cada qual que criei e porque os criei, lembrando a velha história, a criatura necessariamente conhece a cria, mas nem sempre esta conhece o seu criador; quando os criei os fiz juntos e indissociáveis, não foi assim para que disputassem quem era o melhor ou a principal peça, pois todos vocês, seja a menor célula ou a maior glândula; o menor ou o maior órgão, enfim,  todos que ambientam os corpos materiais são importantes para a tarefa terrena que lhes é  destinada. No final da jornada, que só Eu sei quando e como será, não é o conjunto da obra que interessa, e sim, a obra do conjunto. Portanto, todos vocês, que materializam a minha obra, tornarão ao pó, para somente a alma, que os sustenta, vir a Mim  prestar contas da missão que lhe foi dada. Esta é a verdade”.

                       Nesse instante,  do torpor  em que foi arremetido o velho corpo entre as amarras de tubos e monitores no leito do CTI,   o Bravo Coração desperta para continuar a sua  fugaz jornada terrena, ainda que resistentemente, a realidade da Vida que lhe foi emprestada até que venha, em uma incerta noite de certa lua cheia, iniludivelmente ser chamado a prestar contas da missão que lhe foi dada pelo  soberano Criador, incriado, de todo o Universo. ESTA É A ÚNICA REALIDADE.

 Dezembro. 2018

 Vargas Vila

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